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Cerveja feita com dejetos de suínos? Experimento da Embrapa levanta debate sobre o reúso da água


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Foto: Freepik

Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram uma cerveja experimental produzida a partir de água tratada de dejetos de suínos, resultado de um estudo voltado à inovação e à sustentabilidade na agropecuária.

Mais do que curiosidade, a iniciativa busca chamar atenção para o reúso de recursos hídricos na produção animal, em um cenário de escassez de água e avanço da chamada “falência global da água”, apontada em um relatório feito pelo Instituto Universitário das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH).

A produção da cerveja a partir da água tratada foi realizada em pequena escala, de cerca de 40 litros, e não teve objetivo comercial. A iniciativa funcionou como uma “prova de conceito”, criada para provocar reflexão e quebrar o medo de consumir produtos feitos a partir do reúso da água.

Segundo o pesquisador Airton Kunz, coordenador do estudo, apesar do estranhamento inicial, bebidas produzidas com água reutilizada já são comercializadas em países da Europa, especialmente a partir de esgoto sanitário tratado.

“Na Europa, você vai numa gôndola do supermercado e encontra uma cerveja que foi produzida com água de uso de esgoto sanitário. Então, veja, isso não é tão surreal assim”, destaca.

No Brasil, a proposta da Embrapa não é produzir bebidas com essa água, mas demonstrar que, com critérios técnicos e sanitários rigorosos, o reúso é seguro e viável.

Compostos presentes nos dejetos

A suinocultura é uma atividade intensiva, com alto consumo de água e grande geração de efluentes líquidos. De acordo com Kunz, os dejetos de suínos são compostos majoritariamente por água, enquanto uma parcela menor corresponde a matéria orgânica e nutrientes.

“Os dejetos, principalmente o da suinocultura, têm muita água, no mínimo, cerca de 97% de água. Quando comparamos com o esgoto sanitário, o esgoto doméstico das nossas cidades é mais concentrado, já o dejeto da produção animal é mais diluído”, afirma.

Quando não tratados adequadamente, esses resíduos representam riscos ambientais, sanitários e contribuem significativamente para a emissão de gases de efeito estufa, como o metano. Diante desse cenário, a Embrapa passou a investir em soluções capazes de tratá-los e inseri-los de forma segura no sistema produtivo.

Como funciona o processo de tratamento?

O tratamento dos dejetos é realizado por meio de um sistema tecnológico e estudos desenvolvido ao longo de cerca de dez anos. De acordo com Kunz, o processo é dividido em três etapas principais:

Primeira etapa

Na primeira fase, ocorre a separação do material sólido e líquido e a digestão anaeróbia da matéria orgânica. Esse processo reduz o carbono presente nos dejetos e gera biogás, essa etapa leva, em média, 30 dias.

Segunda etapa

Na segunda etapa, o foco é a remoção do nitrogênio, especialmente na forma de amônia, substância tóxica tanto para os animais quanto para o meio ambiente. O nitrogênio é convertido em gás nitrogênio (N₂), em um processo que leva cerca de seis dias.

Terceira etapa

A última fase, com duração de até 6 horas, permite a recuperação do fósforo presente nos dejetos. Esse nutriente pode ser reaproveitado na agricultura ou na nutrição animal, reduzindo a dependência de fontes minerais como a rocha fosfática. 

Ao final das três etapas, obtém-se uma água de alta qualidade e dentro dos padrões ambientais brasileiros para lançamento em corpos d’água.

Recurso estratégico para o agro

Na produção agropecuária, a dependência da água é direta. Sistemas de produção animal, especialmente os confinados, demandam grandes volumes de recursos hídricos.

“Uma granja de suínos com 10 mil matrizes equivale a uma cidade de 30 mil habitantes. Então, é necessário ter práticas de tratamento dos seus resíduos e de gestão dos recursos hídricos”, diz Kunz.

Além disso, o reúso traz ganhos ambientais: reduz a captação de água de rios e poços, melhora a qualidade do ar nas granjas e diminui a emissão de gases de efeito estufa, como metano e amônia.

“Ela é uma água que tem, do ponto de vista da normatização brasileira, o que chamamos de padrão de lançamento em corpos d’água, ou seja, eu posso lançar ela num corpo d’água sem que ela cause impacto ambiental”, destaca o pesquisador.

Mercado

Após anos de estudos, a tecnologia desenvolvida pela Embrapa já saiu do campo da pesquisa e chegou ao mercado. O sistema foi transferido ao setor privado e vem sendo aplicado em granjas de grande escala, reforçando o papel da ciência na busca por soluções sustentáveis para a produção animal.

“Não faz sentido desenvolver tecnologias e deixá-las na prateleira, tem que ir para o mercado. Essa é a função da Embrapa, estar a serviço das cadeias produtivas às quais nós estamos ligados”, destaca Kunz.

A proposta é transformar conhecimento científico em inovação prática, capaz de reduzir impactos ambientais e melhorar a gestão dos recursos hídricos no agro.

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