Acordo da União Europeia com a Índia ameaça Mercosul?

O anúncio do acordo entre a União Europeia e a Índia gerou um ruído desnecessário. A leitura apressada sugere que um mercado de mais de 1,4 bilhão de pessoas poderia reduzir o apetite europeu pelo acordo com o Mercosul. O erro dessa interpretação é simples: confunde tamanho de população com perfil de consumo.
O acordo firmado deixa claro que a relação entre União Europeia e Índia não se baseia em competição agrícola, mas na troca de perfis econômicos distintos. A Europa abriu espaço para bens industriais e tecnológicos, reduzindo tarifas elevadas sobre automóveis, vinhos, máquinas, químicos e fármacos, enquanto a Índia ganhou acesso ampliado ao mercado europeu para produtos intensivos em mão de obra, como têxteis, calçados, couro e jóias. O eixo do acordo inclui ainda serviços, mobilidade de profissionais qualificados e investimentos em áreas digitais e de segurança cibernética, reforçando seu caráter industrial e estratégico — não alimentar.
Mercado grande não é, necessariamente, mercado complementar.
A Índia é um gigante populacional, mas ainda tem renda média baixa, elevada desigualdade e hábitos alimentares específicos. Trata-se de um mercado sensível a preço e volume, com limites claros para absorver alimentos europeus de alto valor agregado. O acordo atende à lógica de diversificação industrial e geopolítica, não à construção de uma parceria alimentar sofisticada.
Já o Mercosul ocupa outro espaço no mercado europeu. Para a Europa, a região oferece complementaridade produtiva, regularidade de oferta e alinhamento com seu padrão de consumo. Proteínas animais, grãos, açúcar, etanol, suco de laranja e café não competem com a produção europeia,ajudam a sustentá-la. Em um mundo marcado por instabilidade climática e cadeias de suprimentos frágeis, a segurança alimentar virou ativo estratégico.
Não é substituição. É segmentação de mercados.
A razão desse movimento é a política comercial dos Estados Unidos. A estratégia de tarifas elevadas e pressão bilateral adotada por Donald Trump, sob o lema do America First, empurrou países e blocos a buscar alternativas. Ao tentar fechar portas, Washington estimulou a abertura de outras. O comércio global não encolheu, foi redesenhado.
Nesse novo mapa, a União Europeia amplia acordos em várias frentes, a Índia ganha protagonismo, o Mercosul permanece relevante e o Brasil ainda discute uma aproximação direta com os indianos. Os fluxos se multiplicam; não se anulam.
Quem fica fora dos acordos corre o risco de ficar fora do jogo.
O acordo UE–Índia não enfraquece o acordo UE–Mercosul. Ele deixa claro que, em um mundo mais fragmentado, a diplomacia comercial deixou de ser opção e virou instrumento de sobrevivência econômica. E, nesse cenário, o Mercosul continua sendo parte da solução europeia, não do problema.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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