Brasil aumentou em 472% a compra de soja do Paraguai; o que explica isso?

O Brasil é, de longe, o maior produtor e exportador de soja do mundo. No entanto, chama atenção o fato de o país estar comprando — e muito — o grão do Paraguai, país que figura apenas na sexta posição entre os que mais colhem a oleaginosa, com cerca de 10 milhões de toneladas a cada safra.
Dados do sistema Agrostat, da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mostram que entre 2023 e 2025, as importações cresceram impressionantes 472%, indo de 176,1 mil toneladas para 1,007 milhão de toneladas.
Vale lembrar que as compras de soja paraguaia pelo Brasil aumentaram justamente nos momentos em que o preço interno se afastou da paridade internacional.
Esse aumento não aconteceu por falta de soja no Brasil, mas porque as esmagadoras passaram a buscar o grão fora, onde o custo de produção é mais baixo e a logística é mais eficiente. Mesmo pagando frete e custos de internalização, a soja importada chega mais barata do que a soja nacional em determinados momentos.
Esse movimento cria um obstáculo claro ao repasse de preços. Sempre que o mercado interno tenta sustentar valores mais elevados para cobrir custos, a importação entra como alternativa econômica para a indústria.
Isso porque países vizinhos, a exemplo de Paraguai e, às vezes, Argentina, conseguirem produzir soja com estrutura de custo mais enxuta e logística competitiva. Assim, a indústria brasileira utiliza a importação como válvula de contenção de preços.
Na prática, o produtor brasileiro fica espremido: de um lado, custos elevados e rígidos; do outro, um teto de preço imposto pela possibilidade de importação.
Preço alto não significa alta renda
Esse cenário de alta nas importações serve para provar um erro dito aos quatro ventos por quem não entende o agro brasileiro: a ideia de que o produtor está faturando alto por conta do aumento interno do preço da soja. Isso não corresponde à realidade do campo.
O que se observa hoje no Brasil é um cenário de pressão de custos, margens comprimidas e dificuldades financeiras crescentes, apesar dos preços nominais em determinados momentos parecerem melhores.
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Produzir soja no Brasil ficou mais caro. Juros elevados encarecem o capital de giro e o financiamento da safra; a logística pesa no frete e na armazenagem; o câmbio influencia diretamente o custo dos insumos.
Soma-se a isso um fator estrutural decisivo: o peso dos arrendamentos de terra, que impõe custos fixos elevados e reduz drasticamente a capacidade de ajuste do produtor.
Arrendamento trava a margem do produtor
Uma parcela relevante dos produtores brasileiros cultivam em terras arrendadas. Nesse modelo, o custo do arrendamento precisa ser pago independentemente do preço da soja, do clima ou da produtividade. Na prática, isso cria um piso de custo rígido.
Quando juros, logística e arrendamento sobem ao mesmo tempo, o preço interno reage para cobrir custos, não para gerar ganho real. O resultado é um preço mais alto no papel, mas margem apertada na prática.
Afinal, se o produtor estivesse ganhando mais, o campo não estaria assistindo ao aumento da inadimplência nem ao crescimento dos pedidos de recuperação judicial. O que ocorre hoje é exatamente o contrário: muitos produtores estão financeiramente pressionados, com dificuldade de honrar compromissos e de renovar crédito.
Isso desmonta a tese simplista de que preço interno mais alto significa rentabilidade maior. Preço não é lucro. O que existe hoje é custo alto, margem apertada e arbitragem limitando preços. Não é contradição. Não é uma distorção. É economia funcionando, com o produtor pagando a conta.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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