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China em 2026: desaceleração administrada ou choque que derruba as commodities do Brasil?


China
Foto: Freepik

A discussão sobre a China em 2026 costuma oscilar entre dois extremos: o alarmismo da “grande recessão” e o conforto de que “nada muda”. A realidade está no meio do caminho — e é justamente por isso que o cenário exige atenção redobrada do Brasil.

As principais projeções internacionais indicam que a China não deve entrar em colapso, mas sim em um ciclo de desaceleração prolongada, com crescimento menor e ajustes estruturais ainda incompletos. O setor imobiliário segue em correção, o consumo interno permanece fraco e o Estado continua sendo chamado para sustentar a atividade.

A China não vai quebrar, mas vai comprar diferente

Diante dessas limitações internas, cresce a percepção de que Pequim seguirá apoiando sua economia por meio da indústria e das exportações. Esse modelo ajuda a manter o crescimento, mas aumenta tensões comerciais e muda o padrão de importações, especialmente de commodities.

Quando a China ajusta, o Brasil sente primeiro

O Brasil é particularmente sensível a esse movimento porque mantém uma pauta de exportações altamente concentrada. Soja, carnes e minério de ferro representam o núcleo da relação comercial com a China. No caso da soja, a dependência é direta: cerca de 70% do volume exportado tem o mercado chinês como destino. Qualquer ajuste no ritmo de compras ou nos preços pagos repercute rapidamente no campo, nos portos e no caixa do produtor.

O maior risco não é a recessão, é a política comercial

Mais do que um crescimento menor, o sinal de alerta está nas decisões de política comercial. Salvaguardas, tarifas e barreiras técnicas mostram que a China pode administrar importações para proteger sua produção interna. Mesmo sem recessão formal, essas medidas tendem a pressionar os exportadores, e o Brasil costuma estar na linha de frente desse impacto.

Juros altos no Brasil ampliam o choque externo

O quadro se torna ainda mais delicado quando se olha para dentro. As projeções indicam que o Brasil deve chegar a 2026 com taxa de juros ainda em dois dígitos, perto de 12,5%. Se economias como China, Estados Unidos ou Europa reduzirem juros para enfrentar desaceleração, o diferencial de taxas favorece a entrada de capital financeiro no Brasil, provocando valorização do real. Para o agro, isso significa preços menores em reais, margens comprimidas e perda de competitividade justamente em um momento de possível enfraquecimento da demanda externa.

O risco para o Brasil em 2026 não está em um único fator isolado, mas na combinação deles. Um ajuste da China, mesmo que controlado, somado a juros elevados e câmbio valorizado, cria um ambiente adverso para quem depende de exportações de commodities. Planejamento, gestão de risco e diversificação deixam de ser discurso e passam a ser necessidade concreta.

China fraca e real forte é a combinação mais perigosa para o agro brasileiro.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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