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O agro brasileiro entrou na fase mais perigosa do ciclo


Reprodução Canal Rural

Eu acompanho o agronegócio brasileiro há tempo suficiente para saber reconhecer quando o risco não aparece nos números de produção. Já vi fases de euforia, já vi colapsos escancarados, já vi quebras barulhentas. O momento atual é diferente. Ele não grita. Ele aperta.

Esses sinais, aliás, são temas que venho comentando aos poucos no dia a dia, em conversas no ar com Pryscilla Paiva, no Mercado e Companhia, e com Antônio Petrin, no Rural Notícias.

Não estamos vivendo uma crise clássica. Não falta tecnologia, não faltam áreas, não falta gente produzindo. O que está faltando é margem. E margem some em silêncio. O agro segue forte no volume, mas frágil no resultado financeiro.

Quem olha de fora vê safra grande, produtividade alta, exportações andando. Dá a impressão de que está tudo sob controle. Mas quem está dentro sabe: o resultado financeiro começou a ficar curto demais para o tamanho do risco que o produtor assume hoje.

Os preços das commodities perderam força. Não foi um tombo, foi um esvaziamento. Eles ficaram ali, andando de lado ou escorregando devagar, enquanto os custos subiram rápido demais nos últimos anos. Fertilizantes, defensivos, máquinas, logística, falta de seguros, nada disso voltou ao que era. E não vai voltar.

Ao mesmo tempo, o dinheiro ficou caro. Muito caro. Juros deixaram de ser um problema passageiro e viraram parte do cenário. O crédito existe, mas vem sendo selecionado, encurtado e pressionando o caixa. O produtor financia mais, por mais tempo, pagando mais para girar o mesmo negócio. Além disso, o número de recuperações judiciais aumentaram.

Nunca foi tão caro produzir e tão difícil transformar produção em margem.

E ainda tem o câmbio. Com o real mais forte, quem exporta recebe menos em reais justamente quando precisa de mais fôlego financeiro. É um aperto dos dois lados: custo alto para produzir, receita menor na hora de vender.

É por isso que eu digo: o problema do agro hoje não está na lavoura. Está na estrutura financeira que sustenta essa lavoura.

Essa fase é traiçoeira porque engana. O produtor segue trabalhando, colhendo, entregando produção. Mas qualquer erro pequeno começa a custar caro demais. Uma quebra localizada, um atraso, uma decisão mal tomada no crédito, um hedge mal feito, tudo pesa mais do que pesava antes.

Já vi isso acontecer em outros ciclos. Muita gente não quebra no auge da crise. Quebra depois, quando acha que o pior passou e relaxa a gestão.

O perigo não é a crise aberta. É a falsa sensação de normalidade.

O agro brasileiro venceu o desafio tecnológico. Virou potência produtiva. Agora enfrenta um desafio mais difícil, porque não depende só dele: o desafio macroeconômico.

E essa situação me lembra uma velha história que circula no mercado financeiro há décadas. Se você joga um sapo em água fervendo, ele salta na hora. Mas se o coloca em água morna e vai aumentando a temperatura aos poucos, ele permanece ali, sem perceber o perigo, até não conseguir mais sair.

O agro corre esse risco agora. A água está esquentando devagar. E quem não perceber o ciclo a tempo pode não ter força para pular depois.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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