Boi gordo: como fica o mercado com salvaguardas da China e acordo Mercosul-UE?

Dentre todos os mercados de commodities agrícolas presentes no Brasil nenhum deles teve um período de festividades de final de ano mais tumultuado do que o mercado do boi gordo, os rumores se intensificaram após o Natal e no ocaso de 2025, no dia 31 de dezembro, veio o temido anúncio das salvaguardas chinesas, impondo mudanças significativas para a corrente de comércio global da carne bovina.
O quadro abaixo exprime a distribuição das cotas, apontando que os dois maiores fornecedores de carne bovina para a China foram os principais prejudicados. Apesar de o Brasil ter recebido a maior cota, 1,106 milhão de toneladas, esse volume parece insuficiente diante do potencial de exportação do país em 2026. A título de comparação no ano passado o Brasil embarcou 1,68 milhão de toneladas de carne bovina in natura para a China.

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A diferença entre o volume embarcado em 2025 e a cota designada ao Brasil representa mais de 570 mil toneladas de carne bovina in natura. Mesmo na comparação com 2024 os números são inferiores, a exportação de carne bovina in natura para a China foi superior a 1,3 milhão de toneladas.
A Austrália também teve em sua cota designada um volume inferior ao tipicamente importado pelos chineses: a cota australiana foi de 205 mil toneladas anuais, com embarques em 2025 que superaram 270 mil toneladas. Em uma análise preliminar, Argentina, Uruguai e Nova Zelândia foram os principais beneficiados, recebendo cotas superiores ao volume que esses países tipicamente exportam aos Estados Unidos.

Vale destacar que as cotas são progressivas, por exemplo, a cota brasileira em 2027 será de 1,128 milhão de toneladas e em 2028 será de 1,154 milhão de toneladas. A medida adotada pelo governo chinês terá duração de 3 anos, o objetivo central é proteger e estimular a produção local. O estudo conduzido pelo governo chinês concluiu que os prejuízos a indústria local foram incisivos ao longo da década, exigindo esse tipo de medida.
O governo brasileiro pediu esclarecimentos sobre alguns pontos das salvaguardas chinesas. A principal delas é se as 350 mil toneladas que estão em trânsito para a China, que foram embarcadas no último bimestre, farão parte da composição da cota brasileira. Se a resposta for positiva o Brasil teria espaço para exportar pouco mais de 750 mil toneladas de carne bovina in natura, o que tornaria o mercado ainda mais difícil para este ano.
Diante da mudança de comportamento chinês no mercado haverá considerável recuo do volume de embarques de carne bovina no ano recém iniciado. A indústria também já altera todo o planejamento para 2026 com a perspectiva de operação com maior capacidade ociosa, ou seja, está prevista a redução da capacidade de abate para o ano corrente.
A grande concentração das exportações brasileiras de carne bovina na China acaba se mostrando uma vulnerabilidade. A letargia chinesa na retomada das compras de carne de frango do Brasil após um único foco de influenza aviária de alta patogenicidade já era um prenúncio.
O protecionismo técnico, aquele em que impõe barreiras a entrada de um determinado produto sem a imposição de tarifas adicionais, que, no entanto, opera como um mecanismo de limitação das importações se tornará um expediente comum nos próximos anos, explorando meandros da OMC e de outros órgãos internacionais.

O Brasil tem novas frentes de ação, estabelecendo alvos prioritários que mais do que agregar volume aos embarques brasileiros de carne bovina, vão agregar receita, com preços médios mais altos do que a de outros mercados. Podem ser citados nesse escopo o Japão, Coreia do Sul e Turquia. Os Estados Unidos tendem a comprar grandes quantidades de carne bovina brasileira na atual temporada, da mesma maneira que a União Europeia também será relevante.
Acordo entre Mercosul e União Europeia
Após 26 anos de um desgastante processo de negociação finalmente foi assinado o acordo União Europeia–Mercosul, que possibilitará avanço das commodities sul-americanas destinadas ao bloco europeu. A relutância italiana e francesa foi superada e finalmente o acordo foi assinado.
Para a carne bovina são 99 mil toneladas em peso carcaça, sendo 55% de cortes congelados e 45% de cortes resfriados, com tarifa intraquota de apenas 7,5%. A tradicional cota Hilton de 10 mil toneladas terá sua tarifa revogada; antes do acordo, havia uma tarifa de 20%. A atual posição do rebanho de bovinos na Europa sinaliza para grandes dificuldades na produção de carne bovina nos próximos anos. Esse ambiente sugere por expansão das vendas no restante da década.
O ano passado foi de grande importância para a abertura de novos mercados, o que pode ajudar a mitigar os efeitos da decisão chinesa. As negociações em relação a outros mercados estratégicos precisam se intensificar e tornar a dependência chinesa cada vez menor. Em termos de volume, apenas a abertura maciça de mercado e a expansão em mercados chave serão capazes de alterar os rumos das exportações brasileiras.
Diante desse cenário, foi necessária uma revisão total quanto a expectativa para os abates. A expectativa para o ano corrente já era de menor abate em função do processo de inversão de ciclo. Agora esse movimento tende a se acentuar, considerando aqui o aumento da ociosidade média por parte das indústrias, somado ao menor incentivo ao confinamento com o mercado menos propenso a altas explosivas.
A expectativa é que sejam abatidos no Brasil em torno de 39,57 milhões de cabeças de gado, decréscimo de 3,6% na comparação com o ano de 2025, em que foram abatidos mais de 41 milhões de cabeças de gado.
A expectativa é que com esse abate, com uma maior participação de machos, ou seja, animais de maior peso médio, haverá uma produção estimada de 11 milhões de toneladas de carne bovina, retrocesso de 3,2% na comparação com o ano passado.

Para as exportações, a ausência chinesa será bastante sentida, com embarques estimados de aproximadamente 4,58 milhões de toneladas em equivalente carcaça, recuo de 8,6% na comparação com as exportações de mais de 5 milhões de toneladas em equivalente carcaça registradas em 2025. Com o atual ambiente delimitado, haverá um crescimento de 1,12% na oferta interna de carne bovina, aproximadamente 6,5 milhões de toneladas em equivalente carcaça.
O ano corrente ganha desafios adicionais com menor espaço para altas consistentes da arroba do boi gordo. Diante do atual cenário a adoção de estratégias efetivas de gestão de preço, comercialização e de risco se tornam imprescindíveis para ampliar as margens da bovinocultura de corte brasileira.

*Fernando Henrique Iglesias é coordenador do departamento de Análise de Safras & Mercado, com especialidade no setor de carnes (boi, frango e suíno)
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