Maduro fora do poder: justiça, petróleo e o difícil pós-intervenção

A deposição e a transferência de Maduro para julgamento nos Estados Unidos marcam uma ruptura com a via multilateral. Washington optou por agir sem a mediação de instâncias como a OEA ou a ONU, alegando a existência de crimes transnacionais, sobretudo o vínculo do regime com o narcotráfico, e a falência prolongada das instituições venezuelanas.
É uma escolha que acelera resultados, mas cobra um preço político alto: o precedente de intervenção direta.
Ditadura, colapso social e responsabilidade do regime
Há anos a Venezuela convive com repressão, empobrecimento e erosão do Estado de Direito. Crimes graves prosperaram em um ambiente de impunidade e omissão do poder central. O argumento central dos EUA sustenta que o chefe do Executivo não apenas falhou em conter esses crimes como teria se tornado parte do problema, ao liderar um esquema criminoso com impactos regionais.
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O petróleo como eixo estratégico
É impossível ignorar o fator energético. A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta. Para os Estados Unidos, a proximidade geográfica e o potencial de investimentos privados oferecem uma oportunidade de reduzir dependências externas e reforçar a segurança energética. A leitura realista é simples: justiça e geopolítica caminham juntas; o petróleo está no centro da equação.
O nó da transição: quem governa agora?
Derrubar um regime é diferente de construir uma democracia funcional. O pós-intervenção abre um campo minado de decisões:
- Eleições rápidas podem carecer de legitimidade institucional.
- Governo de transição liderado por venezuelanos exige consenso mínimo, hoje escasso.
- Recondução de lideranças eleitas no passado enfrenta obstáculos legais e políticos.
Nada indica que a estabilização será simples. O risco de fragmentação, disputas internas e frustração social é elevado.
O impacto regional, e a oportunidade para o Brasil
Se a Venezuela conseguir se reorganizar e transformar petróleo em renda e desenvolvimento, o efeito positivo se espalha. Para o Brasil, um vizinho em recuperação significa mercado para alimentos, proteínas e produtos do agronegócio. A normalização econômica venezuelana pode aliviar pressões migratórias e reativar fluxos comerciais hoje interrompidos.
A saída de Maduro é um marco, não um desfecho. Entre justiça, interesses estratégicos e reconstrução institucional, o desafio real começa agora. Torcer para que “dê certo” é legítimo; compreender a complexidade do caminho é indispensável. A história mostra que intervenções resolvem o imediato, mas apenas projetos políticos sólidos resolvem o futuro.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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