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Maduro fora do poder: justiça, petróleo e o difícil pós-intervenção


Nicolas Maduro, Venezuela

A deposição e a transferência de Maduro para julgamento nos Estados Unidos marcam uma ruptura com a via multilateral. Washington optou por agir sem a mediação de instâncias como a OEA ou a ONU, alegando a existência de crimes transnacionais, sobretudo o vínculo do regime com o narcotráfico, e a falência prolongada das instituições venezuelanas.

É uma escolha que acelera resultados, mas cobra um preço político alto: o precedente de intervenção direta.

Ditadura, colapso social e responsabilidade do regime

Há anos a Venezuela convive com repressão, empobrecimento e erosão do Estado de Direito. Crimes graves prosperaram em um ambiente de impunidade e omissão do poder central. O argumento central dos EUA sustenta que o chefe do Executivo não apenas falhou em conter esses crimes como teria se tornado parte do problema, ao liderar um esquema criminoso com impactos regionais.

O petróleo como eixo estratégico

É impossível ignorar o fator energético. A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta. Para os Estados Unidos, a proximidade geográfica e o potencial de investimentos privados oferecem uma oportunidade de reduzir dependências externas e reforçar a segurança energética. A leitura realista é simples: justiça e geopolítica caminham juntas; o petróleo está no centro da equação.

O nó da transição: quem governa agora?

Derrubar um regime é diferente de construir uma democracia funcional. O pós-intervenção abre um campo minado de decisões:

  • Eleições rápidas podem carecer de legitimidade institucional.
  • Governo de transição liderado por venezuelanos exige consenso mínimo, hoje escasso.
  • Recondução de lideranças eleitas no passado enfrenta obstáculos legais e políticos.

Nada indica que a estabilização será simples. O risco de fragmentação, disputas internas e frustração social é elevado.

O impacto regional, e a oportunidade para o Brasil

Se a Venezuela conseguir se reorganizar e transformar petróleo em renda e desenvolvimento, o efeito positivo se espalha. Para o Brasil, um vizinho em recuperação significa mercado para alimentos, proteínas e produtos do agronegócio. A normalização econômica venezuelana pode aliviar pressões migratórias e reativar fluxos comerciais hoje interrompidos.

A saída de Maduro é um marco, não um desfecho. Entre justiça, interesses estratégicos e reconstrução institucional, o desafio real começa agora. Torcer para que “dê certo” é legítimo; compreender a complexidade do caminho é indispensável. A história mostra que intervenções resolvem o imediato, mas apenas projetos políticos sólidos resolvem o futuro.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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