Queda da Selic deve ficar para o meio do ano, avalia pesquisador do Ipea

A expectativa por uma redução da taxa básica de juros voltou ao centro do debate com a proximidade da primeira reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima quarta-feira (28). Para o economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, a inflação mais comportada abre espaço para cortes nos juros, mas o cenário fiscal e as incertezas internas e externas ainda limitam uma sinalização mais clara do Banco Central no curto prazo.
Segundo o economista, a taxa de juros é o principal instrumento para o controle da inflação. Atualmente, a inflação acumulada em 12 meses gira em torno de 4%, dentro do intervalo da meta, o que alimenta a expectativa de redução da Selic nos próximos meses. Ainda assim, ele pondera que a decisão do Copom não depende apenas do comportamento dos preços.
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Um dos principais fatores de atenção é o desequilíbrio das contas públicas. Vieira Filho destacou o crescimento dos chamados gastos encobertos, como precatórios e restos a pagar, que acabam sendo postergados de um governo para outro. De acordo com o pesquisador, esses gastos já representam algo entre 2% e 3% do Produto Interno Bruto (PIB), o que pressiona as expectativas inflacionárias e dificulta uma queda mais rápida dos juros.
Ao comentar a trajetória recente da Selic, o economista lembrou que a taxa chegou a 2% ao ano durante a pandemia, em um esforço para estimular a economia diante da crise sanitária. Com a aceleração da inflação global no período pós-pandemia, o Banco Central foi obrigado a elevar gradualmente os juros, movimento que se manteve mesmo com a mudança de governo, já que a autoridade monetária atua de forma independente.
Hoje, a Selic permanece em torno de 15% ao ano, patamar considerado elevado quando comparado a outras economias. Segundo Vieira Filho, os juros reais no Brasil, descontada a inflação, estão próximos de 10%, enquanto nos Estados Unidos esse índice gira em torno de 1,4%, evidenciando a diferença de condições macroeconômicas.
O economista avalia que o cenário de incertezas segue elevado. No plano interno, o calendário eleitoral tende a aumentar os gastos públicos. No ambiente externo, conflitos geopolíticos, como a guerra na Ucrânia, tensões no Oriente Médio e discussões sobre tarifas comerciais, aumentam a volatilidade dos mercados.
Diante desse contexto, Vieira Filho acredita que eventuais cortes na Selic devem ocorrer apenas a partir do meio do ano. Ainda assim, ele ressalta que reduções pontuais não serão suficientes para impulsionar o crescimento econômico de forma mais vigorosa.
“É possível até reduzir a taxa de juros e mantê-la em dois dígitos, mas, para um crescimento mais robusto no médio e longo prazo, o Brasil precisa trabalhar com juros de um dígito, o que passa necessariamente por um ajuste fiscal consistente”, afirmou.
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