Soja: Relação entre EUA e China continuará como vetor do mercado em 2026

O mercado internacional de soja deve passar por movimentações relevantes ao longo de 2026, e, nesse contexto, a relação comercial entre Estados Unidos e China continuará sendo o principal vetor para a formação de preços.
Os eventos ocorridos em 2025 reforçaram como tensões geopolíticas e comerciais são capazes de alterar rapidamente fluxos de comércio, decisões de plantio e estratégias de hedge ao redor do mundo.
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O cenário em 2025: tensões e rearranjo do comércio global
O ano de 2025 foi marcado por fortes tensões políticas e comerciais entre Estados Unidos e China. Logo no início do ano, conflitos diplomáticos e comerciais levaram o governo chinês a reduzir de forma significativa as compras de soja norte-americana, movimento que foi rapidamente refletido nos preços da Bolsa de Chicago (CBOT).
A reação do produtor americano foi direta: diante da menor demanda e da pressão negativa sobre os preços, houve uma redução expressiva da área plantada com soja, com migração para o milho. Como resultado, a produção de soja dos Estados Unidos recuou para algo próximo de 115,7 milhões de toneladas, enquanto a produção de milho alcançou níveis recordes, próximos de 430 milhões de toneladas.
Brasil como principal beneficiado do conflito
O Brasil foi amplamente beneficiado por esse rearranjo do comércio internacional. Com a China suspendendo as compras de soja americana a partir de maio de 2025, o país — que já era o principal fornecedor global da commodity — ganhou ainda mais protagonismo junto ao seu maior parceiro comercial.
Esse movimento resultou em uma forte valorização dos prêmios nos portos brasileiros, que em momentos de maior estresse chegaram a níveis próximos de +200 pontos no segundo semestre, ou cerca de US$ 2,00 por bushel. Esse cenário elevou significativamente as cotações no porto e tornou a soja brasileira bastante competitiva no mercado interno, mesmo diante de uma safra recorde, estimada em aproximadamente 171,7 milhões de toneladas.
O ambiente de prêmios firmes se estendeu ao longo do segundo semestre de 2025, enquanto o mercado aguardava algum tipo de acordo comercial entre Estados Unidos e China, o que só veio a ocorrer entre o final de outubro e o início de novembro.
O acordo EUA–China e a reação especulativa do mercado
Quando o acordo finalmente foi anunciado, o Brasil já havia ocupado grande parte da janela de exportação da safra americana. O efeito imediato foi uma forte reação especulativa na Bolsa de Chicago, uma vez que o acordo previa a compra, pela China, de até 12 milhões de toneladas de soja americana até o final de dezembro/25.
Esse movimento foi intensificado pela ausência de dados oficiais, devido ao shutdown do governo norte-americano, o que aumentou a incerteza e a volatilidade. A CBOT chegou a subir cerca de US$ 1,00 por bushel, levando os preços novamente para a região de US$ 11,50, trazendo certo fôlego temporário ao mercado.
No entanto, esse movimento não se sustentou. O Brasil continuava embarcando volumes elevados para a China, que, por sua vez, passou a enfrentar margens de esmagamento menos favoráveis, limitando a capacidade de absorção adicional de soja.
Reversão do movimento e expectativas para a safra 2026
Com o mercado percebendo que as vendas americanas seguiam fracas, a CBOT devolveu parte dos ganhos especulativos. Ao mesmo tempo, o Brasil já avançava no plantio da safra 2025/26, com expectativa de aumento de área e nova produção recorde em 2026.
Soma-se a isso uma Argentina com potencial para colher mais de 50 milhões de toneladas, o que reforça a perspectiva de oferta abundante na América do Sul.
Principais pontos de atenção para 2026
Para 2026, os principais fatores de atenção no mercado de soja brasileira estão diretamente ligados ao ritmo das exportações. Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 85,4 milhões de toneladas para a China, um volume cerca de 18% superior ao de 2024, o que sustentou prêmios elevados nos portos.
Contudo, o recente acordo entre Estados Unidos e China indica que o país asiático pode comprar cerca de 25 milhões de toneladas de soja americana por ano ao longo dos próximos três anos. Caso esse volume se concretize, há risco de redução da participação brasileira nas exportações, especialmente no segundo semestre.
Dado o potencial de uma nova safra recorde no Brasil, esse cenário pode resultar em um estoque de passagem elevado, principalmente se houver desaceleração das exportações. Nesse contexto, torna-se difícil sustentar prêmios firmes na segunda metade do ano, a menos que novos eventos geopolíticos ou climáticos voltem a pressionar a demanda pela soja brasileira.
Implicações para preços e estratégias do produtor
O Brasil ainda deve registrar exportações robustas, possivelmente acima de 100 milhões de toneladas, mas um crescimento adicional expressivo da demanda não é garantido. Esse ambiente representa risco direto para os preços recebidos pelo produtor, reforçando a importância de uma gestão eficiente da comercialização.
Nesse cenário, torna-se fundamental:
- avaliar corretamente o custo de oportunidade, especialmente diante dos juros ainda elevados;
- evitar o carregamento excessivo de soja por longos períodos, arcando com custos financeiros e logísticos;
- utilizar instrumentos de hedge e travas de preço para proteção de margens.
Em um mercado cada vez mais volátil e dependente de fatores externos, a gestão de risco deixa de ser opcional e passa a ser um elemento central para a sustentabilidade econômica do produtor e dos agentes da cadeia.

*Rafael Silveira é economista com pós-graduação em Finanças, Investimento e Banking pela PUC-RS. É especialista em mercados agrícolas na consultoria Safras & Mercado, com ênfase em estratégias de investimento e gestão de risco em commodities
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