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Quando o real forte vira risco?


Imagem de Daniel Dan outsideclick por Pixabay

Nos últimos pregões, o dólar voltou a recuar frente ao real. O movimento não é aleatório nem meramente técnico. Ele reflete uma mudança relevante no cenário internacional: desaceleração do crescimento na China, sinais de arrefecimento da economia americana e pressão crescente para que o banco central dos Estados Unidos inicie um ciclo de redução de juros.

Nesse ambiente, o capital global busca mercados que ainda oferecem retorno elevado. O Brasil, com juros altos, volta a ser destino natural desse fluxo. O efeito imediato é a entrada de dólares e a valorização do real.

Para parte do mercado e da opinião pública, isso soa como boa notícia. Mas, para quem observa a economia real, especialmente o agronegócio e a indústria, o câmbio mais forte traz riscos concretos.

Exportar fica mais difícil

O agronegócio brasileiro é essencialmente exportador. Soja, milho, carnes, café e açúcar são negociados em dólar. Quando o real se valoriza, esses produtos ficam mais caros para o comprador externo. A competitividade diminui, os prêmios encolhem e a conversão da receita em reais perde força.

Na prática, o produtor continua produzindo a mesma quantidade, mas recebe menos ao transformar o dólar em moeda local. O problema é que os custos não acompanham essa queda na mesma velocidade.

Insumos caem menos do que a receita

É verdade que a valorização do real reduz o preço de insumos importados, como fertilizantes, defensivos e máquinas. Mas essa queda costuma ser parcial, lenta e, muitas vezes, absorvida ao longo da cadeia.

O alívio existe, mas raramente compensa integralmente a perda de receita provocada pelo câmbio mais baixo. Além disso, em um ambiente de crédito caro e seletivo, a redução da receita em reais pesa diretamente no caixa do produtor. As margens ficam mais apertadas justamente quando a gestão financeira precisa ser mais rigorosa.

O custo invisível do câmbio

Há um aspecto menos discutido, mas decisivo. O produtor rural brasileiro vende em dólar e paga a maior parte de seus compromissos em reais. Quando o câmbio se aprecia demais, a troca da moeda internacional pela moeda doméstica enfraquece o poder de pagamento, limita investimentos e aumenta a percepção de risco no campo.

Não por acaso, o ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen sintetizou esse dilema em uma frase que atravessou décadas sem perder atualidade: A inflação se aleija e o câmbio mata.

A inflação corrói lentamente. O câmbio, quando mal calibrado, age de forma direta e devastadora: tira competitividade, elimina margens e inviabiliza setores inteiros da economia produtiva. Para um país fortemente dependente das exportações agrícolas, esse risco é ainda maior.

Ano eleitoral: o incentivo político ao real forte

Em 2026, esse debate ganha uma camada adicional. Trata-se de um ano eleitoral, e o câmbio valorizado costuma jogar a favor do governo no curto prazo.

O real forte aumenta o poder de compra da população, barateia produtos importados e estimula viagens ao exterior. Para a classe média urbana, isso se traduz em uma sensação imediata de bem-estar econômico.

Esse efeito psicológico é poderoso. Um dólar mais baixo ajuda a conter a inflação percebida, melhora a avaliação do custo de vida e cria um ambiente político mais favorável. Não é coincidência que governos, em anos eleitorais, tendem a tolerar — ou até estimular — um câmbio apreciado, mesmo que isso imponha custos relevantes aos setores produtivos.

Juros altos sustentam o câmbio

Esse movimento é reforçado pelo diferencial de juros. O próprio Banco Central do Brasil sinaliza que, ao final de 2026, a taxa básica dificilmente ficará abaixo de 12%.

Em um mundo que caminha para juros mais baixos, esse patamar segue extremamente atrativo para o capital financeiro internacional, mantendo o fluxo de dólares e sustentando a valorização do real.

O problema é que esse equilíbrio é artificial e frágil. Ele favorece o consumo e o humor do eleitor no curto prazo, mas cobra um preço alto do agronegócio exportador, da indústria nacional e da capacidade de crescimento no médio e longo prazo.

Um alerta necessário

A queda do dólar não deve ser comemorada de forma automática. Para o agronegócio, ela reduz competitividade. Para o produtor, aperta margens. Para a indústria, estimula importações e desestimula a produção interna.

Em um país exportador de commodities e dependente do campo para gerar divisas, real forte demais não é sinônimo de força econômica, é um risco silencioso.

Como ensinou Simonsen, a inflação machuca aos poucos. O câmbio errado, esse sim, pode matar.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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